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MUITO PRAZER: DESEJO, AMOR E ALGORITMOS SE ENCONTRAM NO NOVO FILME DE JORGE FURTADO

Entre desejo, dinheiro, exposição e relações atravessadas pela vida digital, Muito Prazer encontra no improvável cenário de um motel decadente o espaço perfeito para falar sobre uma geração que tenta sobreviver financeiramente, emocionalmente e afetivamente.

Dirigido e roteirizado por Jorge Furtado, o longa reúne nomes como Luisa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha Jones e estreia no próximo dia 27 em todo o Brasil.

A primeira cena provoca uma identificação quase imediata em quem é gaúcho. Há ali uma memória afetiva reconhecível, conduzida por Daniel de Oliveira, mas o filme não transforma Porto Alegre em protagonista e tampouco insiste em construir uma identidade regional.

A capital gaúcha, entretanto, permanece nos bastidores da história de maneira curiosa: o Motel Pérola, onde acontece boa parte da trama, foi gravado no bairro Cavalhada, em Porto Alegre.

UM MOTEL, MUITOS DESEJOS

É nesse motel em ruínas que Jorge Furtado reúne personagens tentando encontrar algum caminho em meio à falta de dinheiro, ao tédio, à solidão e às próprias contradições.

São jovens que podem ser egoístas, impulsivos e questionáveis. Pessoas que tomam decisões difíceis de defender, mas que, ao mesmo tempo, revelam fragilidades capazes de aproximá-las do público.

A partir daí, Muito Prazer mistura sexo, dinheiro, exposição e algoritmo em uma ideia que começa quase como uma brincadeira, ganha proporções inesperadas e, como toda combinação perigosa, começa a cobrar seu preço.

Mas existe uma palavra que talvez atravesse tudo isso: desejo.

Mais do que falar sobre sexo, o filme parece interessado naquilo que cada pessoa deseja e principalmente em descobrir até onde alguém está disposto a ir para conseguir o que acredita precisar.

O PRAZER FEMININO SEM PEDIR LICENÇA

Outro elemento interessante está na maneira como o prazer feminino aparece.

Não há necessidade de transformar o assunto em uma grande tese dentro do roteiro. Ele simplesmente existe.

As personagens femininas falam sobre seus desejos, reconhecem suas diferenças, experimentam possibilidades e lidam com o próprio prazer sem que isso precise necessariamente ser tratado como tabu.

Grace, personagem de Luisa Arraes, traz em determinado momento uma imagem particularmente bonita: as nuvens.

Vistas de longe, podem até parecer semelhantes. Quando observadas de verdade, porém, nenhuma é exatamente igual à outra.

A metáfora ajuda também a compreender os personagens de Muito Prazer.

À primeira vista, talvez seja tentador classificá-los. Certos ou errados. Bons ou ruins. Vítimas ou responsáveis pelas próprias escolhas.

O filme dificulta essa divisão.

Eles mudam.

Cometem erros.

Tomam atitudes que provocam desconforto e, pouco depois, conseguem despertar ternura.

E talvez seja justamente nessa imperfeição que esteja uma das partes mais humanas da história.

NO FUNDO, UMA HISTÓRIA DE AMOR

Foi nesse ponto que Muito Prazer mais me conquistou, por trás das câmeras, do dinheiro, da exposição, dos algoritmos e de toda a confusão criada por seus personagens, existe uma história de amor.

Mas não aquele amor perfeito, organizado e facilmente reconhecível, e o amor possível.

O amor vivido por pessoas imperfeitas, dentro das condições que possuem e em um cenário bastante simbólico: um motel decadente tentando sobreviver em uma época na qual os algoritmos conseguem entregar fantasias sem que ninguém precise sequer sair de casa.

Existe algo muito contemporâneo nessa contradição.

Quanto mais possibilidades de conexão surgem, mais difícil parece compreender aquilo que realmente aproxima duas pessoas.

E Muito Prazer encontra humor, desconforto, desejo e afeto justamente nesse território.

QUEM É DO AMOR?

Quando o filme termina, a presença de Sérgio Sampaio na trilha ganha outro significado.

Depois de acompanhar personagens buscando dinheiro, prazer, reconhecimento, sobrevivência e alguma forma de afeto, permanece uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, enorme:

Quem é do amor?

Talvez Muito Prazer não esteja interessado em entregar uma resposta definitiva.

E ainda bem, porque algumas perguntas continuam conosco depois que as luzes da sala de cinema se acendem.

Entre desejos, erros, algoritmos e relações nada perfeitas, Jorge Furtado parece lembrar que o amor continua pertencendo aos vivos, aos sentidos e às experiências que dificilmente cabem em fórmulas.

E talvez seja exatamente por isso que ainda continuamos procurando por ele.

MUITO PRAZER
Direção e roteiro: Jorge Furtado
Com Luisa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha Jones
Estreia dia 27 nos cinemas de todo o Brasil.

Editorial exclusivo por Camila Pretto.

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