Das raízes pernambucanas aos protagonistas da televisão, o ator constrói uma trajetória que atravessa romances, conflitos familiares e diferentes retratos do Brasil.
Liberdade e responsabilidade se encontram no novo desafio de Renato Góes na televisão. Escalado para interpretar Heitor Brandão em “Quem Ama Cuida”, o ator assume um personagem que decidiu se afastar da vida planejada pela família e precisa lidar com as consequências dessa escolha. Filho de Arthur Brandão, vivido por Antonio Fagundes, Heitor acrescenta à trajetória de Renato uma questão essencial à dramaturgia: como compreender alguém cujos desejos também provocam sofrimento nas pessoas que ama?
O caminho até esses personagens começou em Pernambuco, entre trabalhos publicitários e a descoberta do teatro. Ainda adolescente, Renato percebeu que queria conquistar espaço como intérprete e procurou formação na Escola Sesc de Teatro, em Piedade, Jaboatão dos Guararapes. Em entrevista à revista Mensch, publicada em 2014, recordou que o interesse pela profissão cresceu quando passou a desejar os papéis com falas nos comerciais dos quais participava. A curiosidade inicial encontrou no palco uma direção profissional.

Na televisão, “Velho Chico”, em 2016, representou um momento decisivo. Como Santo na juventude, personagem posteriormente interpretado por Domingos Montagner, Renato ganhou projeção em uma narrativa de amores e disputas familiares. No ano seguinte, assumiu o médico Renato Reis em “Os Dias Eram Assim”. Já em “Órfãos da Terra”, em 2019, viveu Jamil, ampliando sua experiência como protagonista em uma história atravessada pelo deslocamento, pelo pertencimento e pela possibilidade de reconstruir a vida.
Essa variedade ganhou uma expressão particular em 2022. Na primeira fase de “Pantanal”, ele interpretou José Leôncio jovem, participando da reconstrução de um personagem ligado à memória afetiva da televisão brasileira. Em seguida, encontrou em Tertulinho, de “Mar do Sertão”, outro registro: o antagonista inserido em uma trama de rivalidades e ambições. A proximidade entre os trabalhos permite observar a alternância de funções dramáticas em sua carreira, entre conquistar a torcida do público e despertar sua resistência.

O cinema também integra esse percurso. Em “Legalize Já — Amizade Nunca Morre”, lançado comercialmente em 2018, Renato interpretou Marcelo D2, ao lado de Ícaro Silva como Skunk. O filme acompanha a amizade que deu origem ao Planet Hemp, aproximando seu trabalho de uma história real da música brasileira. Interpretar alguém reconhecido pelo público acrescenta uma exigência própria: construir uma presença dramática em diálogo com uma identidade que já existe fora da ficção.
Em 2025, “Vale Tudo” o colocou novamente no centro de uma produção de grande visibilidade. Como Ivan, formou com a Raquel de Taís Araujo um dos pares centrais da novela, cuja trajetória terminou em casamento. O trabalho acrescentou outro título conhecido dos brasileiros a um repertório que vem aproximando o ator de diferentes gerações de espectadores.

Há uma pista sobre sua relação com o ofício naquela entrevista de 2014: ao explicar sua preparação, Renato destacou a leitura, o cinema e a observação das pessoas como referências para construir personagens. Também descreveu cada papel como uma oportunidade de estudo. Essa perspectiva ajuda a compreender a atuação como um trabalho de atenção ao cotidiano, aos comportamentos e às contradições humanas.
Vista em conjunto, sua trajetória revela um percurso feito de encontros com personagens de épocas, ambientes e temperamentos distintos. É nessa diversidade que reside o interesse de acompanhar Renato Góes: reconhecer o intérprete e, a cada novo trabalho, descobrir quais outras histórias ele pode contar.



