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Bernard Costa Campos: o homem dos bastidores que ajudou a construir a história do maior jornal do Brasil


Longe das manchetes, mas muito perto das decisões, Bernard Costa Campos atravessou alguns dos momentos mais delicados da história do Jornal do Brasil.

Executivo, articulador e homem de confiança da família Pereira Carneiro, seu nome esteve ligado ao poder, às crises e às transformações de uma das instituições mais importantes da imprensa brasileira no século XX.


Há histórias da comunicação que são contadas pelos nomes impressos nas primeiras páginas e existem aquelas construídas por pessoas que quase nunca apareciam nelas, Bernard Costa Campos pertence ao segundo grupo.


Uma pesquisa em registros históricos, trabalhos acadêmicos e memórias de profissionais do período revela que sua participação no Jornal do Brasil e na Rádio Jornal do Brasil foi muito mais relevante do que sua relativa ausência da memória popular pode sugerir.


Ele chegou ao JB em 1954, segundo a reconstrução histórica feita pelo jornalista Cezar Motta, Bernard era advogado e marido de uma sobrinha da Condessa Pereira Carneiro, foi levado para a empresa no momento em que Maurina Pereira Carneiro reorganizava o grupo após a morte do marido, ao lado de Manoel Francisco do Nascimento Brito, Bernard passaria a integrar o núcleo mais próximo do comando empresarial, era o começo de uma trajetória vivida exatamente onde grandes decisões eram tomadas.


Talvez nenhum episódio traduza melhor a dimensão daquele período do que o ocorrido na virada de março para abril de 1964.
Bernard era superintendente da Rádio Jornal do Brasil quando a emissora entrou diretamente no turbilhão político que tomava o país.


Pesquisa acadêmica dedicada à história da rádio recuperou a edição do próprio Jornal do Brasil de 1º de abril de 1964. O documento relata que Bernard Campos foi interrogado pelo coronel Scaffa, então diretor do Conselho de Telecomunicações.


O motivo era o radiojornal transmitido às 18h50.
A emissora havia divulgado informações sobre uma reunião secreta do general Humberto de Alencar Castelo Branco, personagem central da articulação que derrubaria o presidente João Goulart.


Depois de apresentar o conteúdo transmitido pela rádio, Bernard recebeu voz de prisão, a acusação era de que a estação estava divulgando “notícias altamente subversivas”. A ordem acabaria sendo relaxada pouco depois, era um executivo de uma das principais organizações jornalísticas brasileiras sendo colocado diante da autoridade militar por causa do conteúdo levado ao ar.


A Condessa Pereira Carneiro comandou uma transformação histórica no JB, sob sua direção, o jornal abandonou gradativamente a imagem de publicação dominada por classificados e tornou-se referência gráfica, editorial e cultural, Bernard estava no núcleo dessa transformação.


Um registro dos Anais do Senado de 1970, feito na passagem dos 79 anos do Jornal do Brasil, é particularmente revelador: ao homenagear a direção do jornal, o texto menciona nominalmente Condessa Pereira Carneiro, Nascimento Brito, Sette Câmara, Bernard Campos e Alberto Dines, entre outros profissionais, Bernard não era simplesmente alguém que circulava pela administração, ele estava formalmente entre os homens associados à direção de um jornal que, naquele momento, exercia enorme influência sobre a vida brasileira.


Memórias posteriores de Walter Fontoura, que assumiria a chefia da redação depois de Alberto Dines, são ainda mais explícitas. Fontoura definiu Bernard como “o principal executivo do jornal” e recordou que foi justamente ele quem o convocou para ir ao Rio quando ocorreria uma das mais importantes mudanças de comando editorial do JB, enquanto grandes jornalistas construíam diariamente o conteúdo que chegaria às bancas, alguém precisava administrar uma estrutura empresarial cada vez maior.



Na década de 1960, quando o crescimento do jornal exigiu uma nova sede, ele aparece novamente entre os principais responsáveis pelas decisões, a história documentada do JB mostra Bernard envolvido na avaliação de terrenos e, posteriormente, como figura estratégica para decisões sobre orçamento e verbas adicionais para a construção e aquisição de materiais.

A Biblioteca Nacional registra que o periódico recebeu o golpe de 1964 com reservas, posteriormente apoiou Castelo Branco, mas se posicionou contra a candidatura de Costa e Silva e repudiou fortemente o AI-5, decretado em dezembro de 1968., foi nessa atmosfera que Bernard trabalhou.


Ele mantinha trânsito entre personagens importantes da economia e da política. Uma reconstrução histórica registra, por exemplo, sua amizade com Delfim Netto, um dos homens mais poderosos da economia brasileira durante o regime militar e ao mesmo tempo, participava das decisões internas de uma redação que reunia alguns dos maiores jornalistas e intelectuais brasileiros.
Era justamente essa a natureza de seu trabalho: administrar tensões que raramente chegavam ao conhecimento do leitor.



Em dezembro de 1973, uma das páginas mais delicadas dessa história foi escrita, Alberto Dines deixaria o comando editorial do JB.
Walter Fontoura, então em São Paulo, recordaria décadas depois que recebeu um telefonema de Bernard determinando que viajasse ao Rio para assumir o posto.
Fontoura tentou recusar, Nascimento Brito e Bernard rejeitaram seus argumentos, e uma das mais importantes transições editoriais da história do jornal estava definida, esse episódio mostra novamente uma característica de Bernard: quando uma decisão tomada no topo precisava virar realidade, era frequentemente ele quem aparecia para executá-la.



Bernard Costa Campos talvez nunca tenha alcançado junto ao grande público a notoriedade de Alberto Dines, Otto Lara Resende, Antonio Callado, Carlos Castello Branco ou tantos outros gigantes que passaram pelo Jornal do Brasil, sua função era outra, era o homem das salas fechadas, dos telefonemas, dos números, das e das decisões difíceis.

A comunicação que conhecemos hoje só existe porque alguém teve coragem de começar, tudo o que veio depois nasceu de quem abriu os primeiros caminhos. Eles fizeram história, eles foram o começo e é aqui que a história da comunicação brasileira começa.


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