O Senado dos Estados Unidos aprovou nesta terça-feira (28) uma resolução que revoga as tarifas impostas ao Brasil sob a justificativa de “emergência nacional”, instaurada ainda durante o governo Donald Trump e mantida parcialmente pela atual administração. A decisão representa uma vitória diplomática e comercial para o Brasil, mas o futuro da medida ainda é incerto, já que o texto deve enfrentar resistência na Câmara dos Representantes, de maioria republicana.
A proposta, que busca encerrar oficialmente as tarifas sobre produtos brasileiros como aço, alumínio, carne e café, foi aprovada por 52 votos a 48. Cinco senadores republicanos se uniram aos democratas para derrubar a antiga declaração de emergência que servia de base legal para as restrições comerciais.
A resolução foi apresentada por senadores democratas e recebeu apoio de parte do setor privado americano, especialmente de empresas importadoras que vinham pressionando o Congresso para aliviar os custos gerados pelas tarifas. De acordo com o texto, a justificativa de “ameaça extraordinária” à segurança nacional — argumento usado inicialmente para punir países que supostamente prejudicavam a indústria americana — não se sustenta mais diante do cenário econômico atual.

Contexto das tarifas
As tarifas contra o Brasil foram implementadas durante o mandato de Donald Trump, em 2018, e renovadas em 2021 com novos ajustes, mesmo após mudanças na política comercial. Na época, a Casa Branca alegava que o Brasil representava risco à “estabilidade do mercado americano de metais e produtos agrícolas”. Em 2023, o governo dos Estados Unidos voltou a ampliar a lista de produtos afetados, incluindo commodities alimentares, o que gerou forte reação da diplomacia brasileira.
Desde então, as taxas têm afetado diretamente exportações de café, carne bovina e aço brasileiro, reduzindo a competitividade dos produtos no mercado americano. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a manutenção das tarifas custou ao Brasil cerca de US$ 1,8 bilhão por ano em perdas de exportação.
O que acontece agora
Apesar da aprovação no Senado, a resolução ainda precisa ser analisada pela Câmara dos Representantes, onde enfrenta grandes obstáculos. A Câmara é controlada pelos republicanos, que defendem a manutenção das tarifas como forma de “proteger empregos americanos”. Fontes citadas pelo The Guardian afirmam que há forte pressão de grupos industriais e sindicais para que o projeto não avance.
Mesmo que a Câmara aprove a revogação, o texto ainda poderá ser vetado pela Casa Branca. O presidente americano tem se mostrado cauteloso em alterar medidas herdadas do governo anterior que afetam diretamente setores estratégicos como o metalúrgico e o agroindustrial.
“Há um clima político delicado nos Estados Unidos. Qualquer decisão que possa ser interpretada como enfraquecimento da indústria local tem custo eleitoral elevado”, explicou o economista norte-americano Robert Ellison, especialista em comércio internacional da Universidade de Columbia.

Impactos esperados para o Brasil
No Brasil, a decisão foi recebida com otimismo moderado. O Itamaraty divulgou nota afirmando que “acompanha com atenção os desdobramentos da votação e reitera o compromisso com o diálogo construtivo entre os dois países”. Caso o texto avance, analistas acreditam que o setor exportador brasileiro poderá sentir os primeiros efeitos já no primeiro trimestre de 2026, com aumento gradual das vendas para o mercado americano.
A economista Marina Costa, da Fundação Getulio Vargas (FGV), destacou que o fim das tarifas traria “alívio importante para as cadeias produtivas nacionais”. No entanto, ela pondera que “os efeitos positivos dependerão do câmbio, da demanda internacional e da capacidade das empresas brasileiras retomarem espaço perdido nos últimos anos”.
Enquanto o desfecho político não se define, a votação no Senado marca uma sinalização clara de reaproximação comercial entre Brasil e Estados Unidos — ainda que o caminho até a revogação completa das tarifas continue cheio de obstáculos.


